Resenhas

17 de março de 2017

Resenha #148: Eu Te Darei O Sol - Jady Nelson

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"Não sei como isso é possível, mas é: uma pintura é ao mesmo tempo exatamente igual e completamente diferente todas as vezes que você olha para ela. É assim que são as coisas entre mim e Jude agora."

Eu Te Darei o Sol

Livro: Eu Te Darei o Sol
Autora: Jady Nelson
Páginas: 384
Editora: Novo Conceito
Sinopse: Noah e Jude competem pela afeição dos pais, pela atenção do garoto que acabou de se mudar para o bairro e por uma vaga na melhor escola de arte da Califórnia.Mal-entendidos, ciúmes e uma perda trágica os separaram definitivamente. Trilhando caminhos distintos e vivendo no mesmo espaço, ambos lutam contra dilemas que não têm coragem de revelar a ninguém.Contado em perspectivas e tempos diferentes, EU TE DAREI O SOL é o livro mais desconcertante de Jandy Nelson. As pessoas mais próximas de nós são as que mais têm o poder de nos machucar.





Identificação é, no contexto que quero apresentá-los, o ato de você reconhecer alguém ou algo como semelhante a você. De percebê-lo como parte integra sua e você, dele. Você, provavelmente, já passou por aquele momento de segurar o fôlego e arregalar os olhos em que o sentimento de identificação se espalha por seu peito e o aperta, num gesto cálido e quase sufocante. Pode ter sido com um amigo, com um desconhecido, um familiar… ou um filme, uma música, um personagem da sua série favorita. O gostoso de se identificar com alguma coisa ou com alguém é que você cria laços; você não se sente mais só em sua dor, a ovelha negra da família: você se sente entendido.

Com músicas, esse processo é muito comum. Você está relaxado, Lucas Silva e Silva no mundo da lua, sem prestar atenção em particularmente nada. Tem uma música no fundo, mas você está imerso em seus pensamentos, remoendo uma situação ou emoção, e BUM! A música que está passando no rádio começa a pescar as palavras da sua cabeça – e, muitas vezes, do seu coração – e tecê-las em notas e letras, compondo uma canção que, para você, é visceral. Que, para você, é PRA VOCÊ. Feita sob medida para o que você está sentindo e pensando, e até mesmo coisas mais profundas que você não tinha ideia que estava ali, escondido nas profundezas. Um insight musical. A música te tocando enquanto toca você, entende?



Algumas resenhas atrás, eu dissera que o amor, pra mim, é o começo e o fim das coisas, que é ele a força provedora de movimento, de ignição, de levantar e andar de novo; seja o amor por nós mesmos, pelos outros, pelo dinheiro, pelo ódio, por impôr terror ou pela vingança, é ele o combustível da humanidade. Logo na capa deste livro, está escrito: o amor é apenas a metade da história. E, meu Deus, ele é mesmo. Aqui, conhecemos Noah e Jude - Noah e Jude que são mais que irmãos, eles são gêmeos. Metades de um só, metades de uma alma que ascende à singularidade sem querer perder a magia e profundidade que havia no plural deles dois. Noah e Jude que eram tão unidos e que se separaram pelas batalhas que ganharam e nem sabiam que existiam e pelas guerras que existiam e eles nem sabiam se ganhariam. Algumas resenhas atrás, eu falei sobre o amor fraternal entre duas personagens e aqui estou eu, mais uma vez, falando sobre o amor que dois irmãos sentem em meio a todo o resto.

Resto que você conhece. Todos nós conhecemos. Quem tem irmão/colega/irmã-filha-de-outra-mãe sabe que nem tudo são flores. Há amor, sim, mas há muito mais. Disputa, rivalidade, o querer o bem dele e às vezes que ele não esteja tão bem quanto você; há companheirismo, cumplicidade, o ombro que apoia e o dedo que critica. É uma das relações mais confusas… e mais certas que existem, pois sabemos que pros altos e baixos e graves e agudos, nós vamos ter alguém. E é por isso que o amor é só metade da história, porque em toda irmandade e relação a dois, nunca há só amor, há também as intempéries de estar com alguém e gostar de alguém. E por mais que vistamos a face da raiva e da indiferença, nem tudo é o que parece, nem toda a culpa é nossa ou de alguém, nem tudo é verdade inteira sem estar dividida em metades.

Noah e Jude não eram as máscaras que vestiram assim como nós não somos as roupas que usamos. Noah e Jude não eram o que fingiam ser como sapos que mudam de cor porque nem tudo o que a superfície aparenta é profundidade, e por baixo de todo terno e corpete e sobretudo há carne, há sangue, há ossos e vísceras. E, conforme os irmãos iam descamando-se em suas farsas, deslocando um Noah que não era Noah ou rearrumando uma Jude que não era Jude, o leitor foi reagrupando também as suas partes; porque somos apenas frágeis pirâmides humanas, sobrepondo-nos em nós mesmos sem saber onde acabamos ou onde começamos.

Ao ler Eu Te Darei O Sol, eu senti essa sensação extraordinária. Como se eu não estivesse lendo o livro, e sim como se ELE estivesse me lendo. Como se eu fosse o mármore nas mãos do Garcia e ele visse algo em mim; parafraseando um trecho do livro, como se ele tivesse visto um anjo no mármore e tivesse o esculpido até encontrá-lo, até libertá-lo. Senti-me dissecada, modelada e desenhada, senti-me lida e cavada e, então, inundada. Porque me identifiquei. O livro me lia enquanto eu o lia e, como dissera Noah, essa sensação é tudo, absolutamente tudo; é a pintura pintando a si mesma, e no meu caso, a escrita daquelas páginas me lendo e me escrevendo.

Na bíblia da Jude e da vovó Sweetwine, dizia que “encontrar sua alma gêmea é como entrar numa casa onde você já esteve – você vai reconhecer a mobília, os quadros na parede, os livros nas prateleiras, as coisas nas gavetas: você é capaz de se localizar no escuro se precisar” e agora, relembrando cada letrinha e palavra que fluía em frase e corria em parágrafos, posso dizer que minha alma gêmea é este livro, porque me encontrei nele de um jeito… indescritível. Eu sabia o que estava nele sem saber, pressentia os acontecimentos sem sentir, habitava-o sem estar lá dentro.



Foi onde rolou a identificação. O insight literário. As emoções em papéis com brochura e com título, autor e editora que, no fim, é você você e você, suas células, seus órgãos e sua carcaça. Jude dissera e eu repito, porque calha com o que vivi durante a leitura e é o que me vem à mente quando recupero fragmentos dela: “[…] me sinto preenchida de uma coisa que só posso descrever como reconhecimento. Não porque ele parece familiar por fora desta vez, mas porque parece familiar por dentro.”

Não há palavras em todo o universo que possam descrever esta leitura e não tenho a pretensão de tentar alcançar a grandiosidade que ela é. Todo livro é feito e escrito no intuito de ser lido, contudo, Eu Te Darei O Sol foi feito para ler o leitor. É um livro feito não para ser o primeiro de toda a sua experiência literária, e sim para ser o último, tamanha a sua grandeza; o tipo de livro que lhe dá morte em vida e depois vida em morte e é cheio de completude e vividez - um livro perfeito para se morrer depois de ler: morrer de contentamento!, ou o livro perfeito para se ler depois de morrer: de sentir as garras da vida apertarem-lhe o pescoço e nublarem suas perspectivas, sua visão, seu futuro. A realidade é, de fato, avassaladora, como Noah sagazmente notara. O mundo é um sapato apertado, e por vezes não sabemos como as pessoas aguentam porque nós não aguentamos e cedemos a todos os tipos de tristezas possíveis. E este livro é o remédio perfeito, é amor em páginas – combustível, força, ignição, lixador de unhas sufocantes da vida que precisam ser aparadas.

É o tipo de livro que eu não me importaria de morrer depois de lê-lo. Um livro que não me faz pensar em todos os outros milhares que ainda quero ler e nos outros tantos milhares que não conseguirei conhecer. É um livro que valeria a pena morrer só para não denegrir sua imagem e a imagem que pintara em meu coração, para que eu fosse embora deste mundo com o peito resplandecente de boas sensações e pensamentos.

Eu Te Darei O Sol é, de fato, um livro pra se morrer por ele. E, ao mesmo tempo, é um livro pra se viver por ele. Um livro que reaviva as esperanças porque, por alguns momentos, eu senti que o mundo não era um lugar tão horrível; por alguns instantes, eu senti que o mundo era um lugar bom, que o mundo era certo. E eu daria o sol para a Jandy Nelson por ter me presenteado com este sentimento, mesmo que tenha durado pouco. É um livro que não se compara aos outros, que não coexiste com outras leituras, que simplesmente é. É arte pintando a vida e poesia versando emoções.

É tudo, cada pequena e grande parte de você. E seu nome diz absolutamente todas as coisas que podem ser ditas sobre ele – não faz referência à fala de Jude ao Noah, não a meu ver. Faz referência ao que o livro pode te dar. Ele pode te dar o sol, o universo, cada coisinha que você quiser, porque em um determinado momento da leitura você não é mais leitor-e-livro, você é o livro e o livro é você, e você pode conseguir tudo o que se atrever a querer, pode ser quem você quiser ser, pode buscar e lutar e almejar e amar o que você quiser ter. O livro lhe dará o sol, o calor, a consciência da chance e de que ela existe. Ele é você e você é ele e juntos vocês SÃO, seja lá o que vocês forem. Se o livro te lê e você lê o livro, você abre o leque de luzes e cores e descobre quais delas estão em você. O livro é uma linda paleta de cores porque você é uma linda paleta de cores.

E isso… isso é sensacional. Que outra leitura faz isso com você?



Postado por Layla Magalhaes

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