Resenhas

18 de fevereiro de 2017

Resenha #143: The Female of The Species - Mindy McGinnis

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"É desse jeito que mato alguém. Eu aprendo seus hábitos, conheço sua rotina. Não é difícil. E eu não me sinto mal quanto a isso."


The Female of the Species

Livro: The Female of The Species
Autora: Mindy McGinnis
Páginas: 352
Sinopse:  Alex Craft sabe como matar alguém. E ela não se sente mal com isso. Quando sua irmã mais velha, Anna, foi assassinada há três anos e que o assassino saiu impune, Alex liberta a língua que ela sabe melhor. A linguagem da violência.Enquanto seu crime fica impune, Alex sabe que ela não pode ser confiável entre outras pessoas, mesmo em sua pequena cidade natal. Ela relega-se para as sombras, uma menina que passa despercebida à vista, nos corredores do ensino médio.Mas Jack Fisher a vê. Ele é o cara que todos os outros caras querem ser: o atleta estrela em projeção para ser o orador oficial com a rainha do baile em seu braço.A culpa sobre o papel que desempenhou na noite o corpo de Anna foi descoberto não o deixa esquecer de Alex ao longo dos anos, e agora seus olhos verdes em meio a uma constelação de sardas tem sua atenção. Ele não quer ver apenas Alex Craft; ele quer saber dela.O mesmo acontece com Peekay, filha do pastor, uma menina cuja identidade está envolvida com o trabalho de seu pai, embora isso não a impediu de conhecer o sabor da cerveja ou falta do toque de seu ex-namorado. Quando Peekay e Alex começar a trabalhar juntos no abrigo animal, forma-se uma amizade e a natureza protetora de Alex estende-se a mais do que apenas os cães e gatos que cuidam.Circunstâncias fazem com que Alex, Jack, e Peekay se vejam juntos como seu último ano. Enquanto festejando durante a noite, a natureza escura de Alex irrompe, definindo os adolescentes em rota de colisão que irá mudar suas vidas para sempre.



Vocês acreditam em justiça? Que o mundo dá voltas e que pagaremos, cedo ou tarde, pelos erros que cometemos?
Impune, no dicionário, tem como conceito um adjetivo que se dá para alguém que não sofreu o castigo que merecia; que não foi punido de acordo com o crime cometido nem sofrera repressão. O tom da definição nos leva a pensar na equidade, na correspondência de julgar o que é ou não justo. E o tom geral deste livro nos faz questionar o seguinte: numa sociedade em que a justiça é tão abstrata e de difícil alcance, o sistema é falho e as vidas são menos preciosas que um montante de dinheiro, fazer justiça com nossas próprias mãos é assim tão incorreto?


Acho que, em primeiro lugar, devemos refletir sobre o que é justiça. No mundo, cada cultura tem uma visão diferente do que é e de como deve ser feita. Para algumas, a punição para roubar é perder a mão. Para matar, é perder a vida. Para estuprar, é perder a genitália. Olho por olho, dente por dente. Em outras culturas, há a pena de morte, indo de enforcamentos à cadeira elétrica. No modo de ver brasileirinho, justiça é ir preso podendo pagar fiança para sair e/ou ser liberado mais cedo por bom comportamento. Não quero entrar numa discussão sem fim sobre qual modelo é o mais certo e o que poderia ser mudado, apenas quero perguntar a vocês se a punição (quando e se chega) é válida. Ponham-se no papel de vítima, de irmã da vítima, de mãe da vítima, ou qualquer outro que vocês prefiram. É o bastante ver preso por alguns anos alguém que tirou a vida de uma pessoa que você ama? É certo ter de esperar anos para que um juiz tenha que decretar como um criminoso pagará por ter lhe feito mal?

"É mais fácil gostar de animais do que de pessoas, e há uma razão para isso. Quando os animais cometem um pequeno erro, você ri deles. Um gato calcula mal um pulo. Um cachorro olha de um jeito excessivamente zombeteiro para um objeto simples. Essas são coisas engraçadas. Mas quando uma pessoa não entende algo, se elas julgam mal e freiam tarde demais, elas são culpadas. Elas são estúpidas. Elas estão erradas."

Alex perdera a irmã para um estuprador. Desde então, ela tem se aprimorado em defesa pessoal, adotando a tática de bater primeiro e perguntar depois. Ela não é uma adolescente normal, devo logo esclarecer. A amiga que leu junto comigo por vezes perguntara se ela (Alex) era psicopata ou não. Ela não é, e isso fica claro quando vemos que ela SENTE. Ódio, alegria, amor, preocupação... ela sente, não importa o quê. Ela mesmo já se vira frente a frente com a definição de psicopatia e sociopatia sem encontrar-se nelas.

"Eu não estou bem, e duvido que um dia estarei. Os livros não me ajudaram a achar uma palavra para mim mesma; meu pai se recusou a aceitar o peso disso. E então eu fiz a minha própria palavra.Eu sou vingança."



O problema da Alex não é de função psicológica, muito pelo contrário. Ela é fria. Lógica. Faz o que tem de fazer sem pensar no por quê ou no e se. Só que ela não é uma heroína igual as outras. Ela não é como os heróis de quadrinhos e séries, os vigilantes mascarados que encontram um jeito de salvar aqueles que eles amam de qualquer jeito sem encontrar a punição pelos percalços e erros encontrados no caminho. Alex é real num livro cheio de realidades. Não há poderes, visão noturna, superforça, invisibilidade. Ela não vestia capas e não contava com munhequeiras douradas nem laços ultra resistentes. Não há como Alex fazer justiça sem ser perseguida por ela, e esse é o aspecto tão amargo e pesado do livro: ver que é certo e tão errado, ficção e tão verídico. E foi isso que me deixou brava, no final de tudo: a Alex ser uma heroína para mim e tudo acabar com a dose de realidade que a diferencia do Batman, do Demolidor, do Arqueiro Verde. Ela não pode ir contra a lei sem ser perseguida por ela. E isso é irritante. Revoltante. Certo até dizer chega, mas enlouquecedor na mesma medida.
"Vivo num mundo onde não ser molestada quando criança é considerado sorte."
The Female Of The Species é um tremendo livro. Uma leitura muito importante em meio a uma sociedade tão machista e patriarcal. É girl power da primeira até a última página. Temos os pontos de vista da incrível Alex, da Peekay, filha de pastor mais p*rra louca da história e do Jack, o cara que é a mocinha de todo o enredo. O que me atraiu neste livro fora a união das personagens femininas e de todo o feminismo, não explicitamente jogado na nossa cara e sim explorado nas relações das meninas. Em todo livro há rivalidade entre garotas, principalmente num young adult; neste também há, mas o ponto principal fora que elas superaram isso quando tiveram de se unir e se ajudar. O fato de o cara gato que supostamente deveria ser o pilar de força e segurança ser um bocó inseguro e até mesmo um tanto tosco fora uma surpresa bem vinda também. O livro se mostrou ser nem um pouco convencional e retratou o luto de um modo que não estamos acostumados a ler por aí.
"Todos pensam que se você ajustar um cachorro macho ele diminuirá sua agressividade, mas a maior parte dos cães que mordem são fêmeas. É um instinto básico para proteger o ventre. Você pode ver isso em todos os animais - a fêmea da espécie é mais mortal que o macho."

Decepcionei-me com alguns personagens no final, mas vi (de modo concreto e cheio de sentido, e não num modo John Green em Cidades de Papel) que as pessoas são como são e elas não são perfeitas, apesar dos pesares, então não fora uma decepção DECEPÇÃO, e sim uma decepção do tipo você-me-desapontou-porém-eu-te-saquei. No livro tem abuso (sexual e mental), tem assassinato, romance, brigas, amizades, injustiça, cachorros fofinhos, cachorros nem tão fofinhos assim, gatinhos que valem a pena amar (os felinos de verdade) e gatinhos que não valem nem um pouco a pena perder seu tempo (humaninhos, neste caso). Mas, sobretudo, há a martelada da justiça. E é essa que balança seu coração e faz você questionar que espécie de justiça queremos e qual é suficiente pra sanar o que perdemos.

Mais do que páginas de ficção dosadas da realidade pútrida em que vivemos, TFOTS nos dá exemplos de mulheres que não cedem, e para as jovens que leem o estilo YA e estão construindo a identidade delas enquanto habitam um mundo que não aceita formas diferentes das pequenas e pré-programadas ideias deles de como devemos ser, é uma paleta de cores novas em meio ao preto e branco dos quais estamos acostumados. Mostra um lado feminista sem o dogmatismo e as brigas que conhecemos, um feminismo prático e simples que zela o lado humano de mesmos direitos, de mesmas oportunidades e de mesmas punições.

É rico, é exemplar, é divino. Bate de frente com a frase A CULPA É DA MULHER e é completamente coerente e bem aplicado, sem nos jogar no meio de um enredo esperando que encontremos um sentido que não existe. Alex dissera exatamente o seguinte: "Estou te dizendo. Não importa. O que você estava usando. Como se parecia. Nada disso importa. Assista o canal sobre natureza. Predadores vão atrás de presas fáceis." e isso pode parecer completamente normal, sem novidade alguma para uma maioria, mas, para alguém que já passara por uma situação de agressão, essas palavras podem ser novas, podem mostrar uma concepção de certo e de errado que nunca fora vista antes, podem ser botes salva-vidas em meio a um temporal. Alguns leitores podem ter passado por estes trechos sem realmente notar quão grandiosa a cena era, mas eu vi, senti e internalizei; nos tempos atuais, qualquer apoio que possamos encontrar e dar é super importante.

 ESTE LIVRO É SUPER IMPORTANTE, e sem sombra de dúvida, numa era em que Trumps têm chances e agressões sexuais ainda são justificadas com o tamanho da roupa da vítima, estas páginas são quase bíblicas. São relevantes. Críveis. Fundamentais. São mais necessárias para as jovens do que o velho bê-a-bá de Pedro-Álvares-Cabral-queria-ir-para-a-Índia-e-acabou-vindo-pra-cá. Indicado para as migas, pros migos, para as primas, titias e mamães. Pros papais mentes concretizadas e vovôs com pé no século vinte e um mas espírito no dezoito. Todos devem ler, não importa a fase da vida e das experiências sentidas.
Porque tudo se trata de empoderamento.

Uma personagem da história perguntara a Alex quem era o supervisor dela, e ela pura e diretamente dissera que seu supervisor era Deus. Deus, que é por definição um ser divino, não dizendo se é homem, mulher, negro(a), branco(a), bonito(a) ou feio(a). Deus, que numa sociedade patriarcal, é retratado como um homem branco de barba branca e expressão austera. Deus, o único capaz de julgar certo, e ele é um homem. Vocês provavelmente não conseguem ouvir meu riso de escárnio daí, mas estou rindo. Porque tudo se trata de empoderamento. Tudo se trata da crença de que um é inferior ao outro. E não há nada melhor do que um livro pra mudar essa balança.
Nada como uma fêmea da espécie para mostrar que a justiça pode ser feita por ela.
Leiam. Vivam. Repensem.
Este é o livro certo pra isso.




Postado por Layla Magalhaes

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